Inhotim: profunda relevância para a arte contemporânea brasileira

O Instituto Inhotim já é bastante conhecido pela excelência de sua incomparável coleção de arte, assim como de seu acervo botânico e arquitetônico, e nem mesmo a sua improvável localização – a cerca de uma hora e meia de Belo Horizonte – é capaz de inibir o interesse que desperta no público em geral, e mais particularmente entre os apaixonados pela arte contemporânea. Em visita a esta instituição neste mês de junho, a equipe Artmotiv experimentou de perto a intensa movimentação que Inhotim desperta, mesmo durante os dias de semana, constatando a importância e o alcance deste projeto único, verdadeira jóia do circuito de arte nacional; gostaríamos então de aproveitar para fazer aqui algumas breves observações.

Dentre inúmeros aspectos notáveis, deve-se antes de tudo destacar a excepcionalidade das obras de arte que abriga: em um conjunto marcado pela diversidade das propostas artísticas, e combinando nomes consagrados da arte brasileira a artistas internacionais de ponta, esta instituição construiu uma constelação de obras capaz de cobrir uma vasta gama de temas, questões e indagações, através das quais o público entra em contato com a força e a inquietação da cultura contemporânea.

Não faltam nesta coleção figuras fundadoras da arte brasileira: Hélio Oiticica, por exemplo, está presente com Magic Square #5, um penetrável concebido para ser construído ao ar livre, a partir de estruturas quadradas, através das quais circulamos, e em torno das quais simplesmente sentamos, como quem passeia em uma praça pública. A intensidade das cores no espaço natural se modifica conforme a incidência luminosa e o jogo de reflexão que as peças estabelecem umas com as outras, e a obra continua a se transformar à medida que a contornamos e exploramos os seus meandros. Datada dos anos setenta, esta obra está intimamente relacionada aos relevos espaciais do final dos anos 50, por exemplo, e explicitam a coerência profunda que está por trás de toda a obra do autor.

Magic Square #5, de Hélio Oiticica. Um penetrável concebido para ser construído ao ar livre
Magic Square #5, de Hélio Oiticica. Um penetrável concebido para ser construído ao ar livre

Da mesma maneira, as Tetéias de Lygia Pape nos ligam à tradição neoconcreta, embora seja uma obra concebida já nos anos 90: fios dourados constroem a ilusão de volumes geométricos no espaço, em meio a uma penumbra que acentua as imprecisões de nossa percepção. A obra sugere uma equivocada impressão de solidez, como se fossem pilastras, que entretanto se desmaterializam, etéreas, no ar, à luz de uma inspeção mais cuidadosa, e nos remete a um diálogo com a tradição da optical art de um Soto; por outro lado a diagonalidade de cada “pilastra” alude à angulosidade do próprio prédio que a abriga – e nesta relação entre obra de arte e arquitetura encontramos mais um sinal da excepcionalidade de Inhotim.

As s Tetéias de Lygia Pape conectam o público à tradição neoconcreta
As s Tetéias de Lygia Pape conectam o público à tradição neoconcreta

Por sua vez, a escultura de Amílcar de Castro exibe porte e concepção adequados à esta coleção: à escala incomumente grande de sua peça, e à grossura da chapa de ferro, se adiciona a dobradura em quase 180º graus, e o recorte irregular de sua forma: uma verdadeira obra prima da maturidade do grande artista mineiro.

Entretanto, para além destes artistas históricos, Inhotim reserva enorme espaço para aqueles que são, possivelmente, os dois maiores nomes da arte brasileira atual: Cildo Meireles e Tunga. Cildo está (muito bem) representado com algumas de suas mais conhecidas instalações: em Através, não apenas vemos, mas adentramos, e experimentamos, uma série de elementos da vida comum cujo objetivo é cercar, barrar a passagem, impedir a entrada das pessoas. Assim, grades de presídio, cercas de arame farpado, guarda-corpos, etc…, são colocados sobre um espaço coberto de vidro estilhaçado; podemos ver através, pois não chegam a impedir a visão, e somos ao mesmo tempo ambiguamente convidados e dissuadidos a adentrar a peça – há espaço para atravessar as barreiras, mas elas também oferecem resistência e perigo. As conotações políticas são evidentes, mas a obra parece aludir a mais do que contextos históricos específicos, tornando-se metáfora dos obstáculos que a vida nos apresenta, e constituindo-se portanto em um exercício simbólico da superação dos limites.

Já a conhecidíssima instalação Desvio para o Vermelho apresenta três diferentes espaços: no primeiro, entramos como que em um uma sala de estar de um apartamento, com uma particularidade: dos tapetes e mobílias aos objetos, simplesmente tudo, com exceção das paredes, é vermelho. Assim, sofás, cadeiras e mesas; livros, máquina de escrever e tudo o mais, inclusive as obras de arte (e vemos obras de Angelo de Aquino, Niúra Belavinha e Rosangela Rennó, entre muitos outros artistas), exibe a coloração avermelhada. De imediato, a instalação remete à famosa obra prima de Matisse, Estúdio em Vermelho, pintura que apresenta o estúdio do artista quase como uma tela monocromática, e portanto plana e sem profundidade. Mas, à medida que nos aprofundamos na instalação, novas camadas de significado vão surgindo: a pequena garrafa que derrama uma quantidade de líquido vermelho muito maior do que poderia realmente comportar nos leva à uma sala escura, ao fim da qual uma pequena pia torta derrama líquido vermelho: instantaneamente, conotações político-ideológicas e alusões à violência nos porões da ditadura adicionam uma dramaticidade inesperada à instalação. Estamos diante simplesmente de uma das mais significativas obras da arte brasileira dos anos 70.

A sala do
A sala, primeiro espaço do “Desvio para o Vermelho”, instalação de Cildo Meireles
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O líquido vermelho escorrendo pela pia, ao fundo da intalação de Cildo Meireles: conotações político-ideológicas e alusões à violência nos porões da ditadura.

Neste momento, é impossível não sermos remetidos à Tunga, e à sua instalação True Rouge, também marcada pela cor vermelha. Amigo pessoal de Bernardo Paz – o empresário de mineração que é o proprietário e patrocinador de Inhotim – , o artista inspirou e colaborou na idealização deste projeto ambicioso e exuberante, e True Rouge foi uma das primeiras obras do acervo, sendo portanto um de seus marcos fundadores. Localizada em um prédio à beira de um lago, a obra exibe sacos e redes com esponjas e objetos como taças, vasos e recipientes de vidro com líquidos vermelhos, resquícios de uma performance durante a inauguração da obra. Esta performance teria tido a função de ritualizar a inauguração da peça, sendo por isto chamada pelo artista de “instauração”, e teria contado com grupos de modelos femininos e masculinos circulando nus pela obra, inserindo pedaços de gelatina vermelha nestas redes, que terminavam por pingar pelo chão criando poças de líquido, aludindo ao sangue. Assim, erotismo, fluidos corporais e poções alquímicas se misturam, remetendo à teia de simbolismos que compõem a obra do artista – que de resto podemos testemunhar ao vivo no portentoso pavilhão que, do outro lado de Inhotim, exibe uma maravilhosa coleção de sua obra.

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True Rouge, de Tunga. A performance, que teve a função de ritualizar a inauguração da peça, foi chamada pelo artista de “instauração”

Em resumo, não seria possível pretender neste espaço reduzido dar conta da multiplicidade e variedade de grandes obras e artistas que compõem este instituto admirável. Desejamos, no entanto, refletir aqui sobre a profundidade da importância de Inhotim para a arte contemporânea brasileira, e para o estabelecimento e reconhecimento do que de melhor a cultura visual deste país tem produzido. A presença do trio de artistas egresso do grupo neoconcreto (e é claro que outros nomes deste movimento poderiam se fazer presentes), e a proeminência do espaço concedido na coleção às obras de Cildo e Tunga, fazem jus ao valor e significados centrais de suas obras para a arte contemporânea brasileira, e constituem uma firme estrutura em torno da qual transitam as demais obras e artistas, nacionais e internacionais, desta inigualável coleção. Em outra oportunidade nos debruçaremos sobre estes outros nomes e obras, que em muito contribuem para a excelência de Inhotim, esta incrível instituição no interior das Minas Gerais.

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Espécies pouco conhecidas foram escolhidas para os jardins do Instituto, com o intuito de trazer ao púbico plantas de rara beleza, incomuns em projetos paisagísticos no Brasil e no exterior.
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