Platão no país dos ready made

Em célebre passagem do Livro X de A República, Platão se utiliza do curioso exemplo de peças de mobiliário doméstico para afirmar que as ideias – como as ideias de cama, ou de mesa – possuem um grau superior de realidade em relação às camas e mesas que experimentamos no mundo sensível: estas seriam apenas cópias imperfeitas, simulacros, falsificações carentes de ser real. Isto porque, enquanto a ideia de cama possui universalidade e estabilidade, sendo necessariamente eterna e imutável, as camas que possuem existência material seriam apenas exemplos particulares, sujeitos à mudança, à corrupção e ao desaparecimento. Diante desta maneira de pensar, as obras dos artistas miméticos (o modelo de arte visual vigente no tempo de Platão) seriam então relegadas a uma desqualificação ontológica ainda maior que as camas e mesas materiais, pois estas, ao serem representadas com técnicas imitativas, careceriam ainda mais de ser, sendo não mais que cópias de outras cópias, afastando-se agora, então, em dois graus em relação à verdadeira essência da cama, ou da mesa. Assim, de acordo com o modelo ontológico do filósofo clássico, o artista seria responsável por um duplo simulacro, por produtos enganadores e sem valor, devendo então ser expulso da república.

Mas como ficaria esta antiga condenação do artista, na era dos ready made? O que fazer diante de obras constituídas não por imitações de camas, ou por pinturas de mesas, mas por camas e mesas reais? Tomemos como exemplo One and three chairs, célebre obra do americano Joseph Kosuth: não seria possível reconhecer ali um esforço por ampliar o alcance ontológico das obras de arte, ao apresentar em uma obra os três aspectos de um objeto – a cadeira enquanto objeto concreto, sensível; a mimese da cadeira, na forma de sua representação fotográfica; mas também uma modalidade da ideia de cadeira (a definição de dicionário)?

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One and three chairs, célebre obra do americano Joseph Kosuth

E quanto à mesa do artista britânico Tony Cragg: devemos ver ali a mera cópia de uma cópia, ou seria necessário perceber intenções totalmente distintas das de um mero copista – quais sejam, um provocativo estudo de espaço e escala, bem como de proporção e volume? Ou, ainda, uma pesquisa sobre a relação entre objetos manufaturados e objetos encontrados na natureza; ou entre elementos de origem orgânica e elementos de origem mineral?

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O artista britânico Tony Cragg: um provocativo estudo de proporções e materiais.

A colombiana Doris Salcedo certamente não se limita a copiar itens de mobília, como imaginou Platão: suas esculturas, produzidas a partir de objetos de famílias marcadas pela perda de entes queridos para a violência em seu país natal, visam antes trazer à tona a sensação de vazio, de luto irreparável: cadeiras, mesas e armários evocam a atmosfera de uma vida doméstica fraturada, de uma convivência familiar interrompida, tornada áspera, pesada e sem nexo.

Doris Salcedo e suas esculturas, produzidas a partir de objetos de famílias marcadas pela violência colombiana
Doris Salcedo e suas esculturas, produzidas a partir de objetos de famílias marcadas pela violência colombiana

Equilibradas umas sobre as outras, as mesas e cadeiras da obra Inmensa, do brasileiro Cildo Meireles, tampouco se restringem a meramente imitar: explorando com um toque surrealista a variação de escala entre as partes da escultura, o artista alude à tradição geométrica brasileira, ao mesmo tempo em que remete à perversa estrutura social e econômica do país, com uma invertida ordenação piramidal em que os elementos mais graúdos, pesados e poderosos estão por cima, se apoiando sobre os menores.

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Cildo Meireles e sua obra Inmensa, exposta em Inhotim

Mesas, cadeiras e demais objetos cotidianos próprios da vida doméstica também são os materiais que constituem grande parte da obra do artista mexicano Damián Ortega. Em Cosmogonia Doméstica, por exemplo, todo um conjunto deste tipo de objetos familiares que compõem a rotina de nossa vida cotidiana são dispostos ao ar livre, em plena praça pública, contrariando sua vocação íntima. Organizados em círculos concêntricos, realizam movimentos que remontam à trajetória dos planetas em torno do sol, ecoando neste microcosmo a ordem inexorável do sistema solar. Cadeiras, pratos, jarros, panelas e chaleiras giram, à maneira de luas e demais corpos celestes, ao redor da mesa central, dominada por uma luminária acesa: metáfora da ordem cósmica, na qual nos refletimos para constituir nossa própria ordem social.

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Mesas, cadeiras e demais objetos cotidianos próprios da vida doméstica, estão presentes na obra Cosmogonia Doméstica, do mexicano Damián Ortega.

Enfim, se Platão pudesse ver estes, como muitos outros, exemplos de arte contemporânea, possivelmente poderia formar uma visão diferente dos artistas e suas obras, e perceber que as obras de arte não são meras imitações ou cópias dos objetos do mundo, pois possuem algo que estes objetos do mundo não possuem por si mesmos – um “significado”.  Camas, mesas e cadeiras que encontramos no dia a dia não possuem sentido além do uso que podemos fazer delas (deitar, apoiar e sentar), mas as camas mesas e cadeiras que encontramos na arte estão imbuídas deste algo especial: uma carga semântica, um conteúdo simbólico, atribuído a elas pelos artistas, e que nos cabe interpretar. Platão não percebeu que as obras de arte, inclusive as obras da arte mimética de seu tempo, não imitam a realidade, mas dela se distinguem fundamentalmente: pois obras de arte não são simplesmente uma coisa entre outras coisas do mundo, mas uma forma especial de linguagem pela qual produzimos ideias, conceitos e significados que exprimem, cada qual à sua maneira, o espanto de existir.

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