ARTRIO 2015: a cidade se conectou com o mundo através das artes

Feiras de arte são, sem dúvida, eventos fascinantes. A profusão de obras de estilos e períodos variados que costumam apresentar, de grandes mestres modernistas às apostas recentes das galerias, constitui um verdadeiro banquete de ideias e realizações artísticas diversas. A despeito de muitos altos e baixos, sempre é possível encontrar ali um acervo de alta qualidade, e que está disponibilizado por um período limitado de tempo – afinal, trata-se de obras particulares em trânsito, mudando das mãos de um proprietário para outro, e que possivelmente não serão exibidas em público tão cedo.

A 5ª edição da ArtRio, encerrada neste último domingo, reafirmou mais uma vez estas constatações. Espalhada por quatro armazéns na região do porto do Rio de Janeiro, a feira carioca exibiu uma ampla diversidade de artistas trazidos por cerca de 80 galerias de 12 países, que não se intimidaram com a aguda recessão econômica pela qual atravessa o país. Quem ganhou foi o público carioca, tanto o colecionador e o aficionado, como a legião de curiosos que invadiu o espaço do evento no final de semana, e que puderam ver de Picassos e Mirós às experiências artísticas mais arrojadas e questionadoras dos novos nomes do mercado.

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Beth Jobim, instalação de pintura. Um olhar coerente e sofisticado da galeria carioca Lurixs Arte Contemporânea.

Entre as atrações internacionais, encontramos, por exemplo, a galeria David Zwirner, de Nova York, que trouxe este ano, entre outras obras, um conjunto muito interessante de gravuras de Donald Judd, e também um excelente desenho de Richard Serra. Ambos os artistas, expoentes do minimalismo americano, são nomes consagrados da história recente da arte, e verdadeiros mestres da arte contemporânea. As gravuras de Judd formam um grupo de dez trabalhos que dialogam entre si com o rigor analítico que caracteriza o movimento minimalista: as possibilidades estruturais dos planos e listras que recortam o espaço são matematicamente organizadas, e refletem a racionalidade que fundamenta o trabalho do artista. Já o trabalho de Richard Serra, escultor mundialmente celebrado, traz para o campo do desenho elementos de uma materialidade agressiva (áreas pretas muito encorpadas de pastel oleoso), que se contrapõe aos espaços vazios e brancos do papel: o mestre da escultura é também um mestre do desenho.

Peça rara trazida pela galeria amaricana David Zwirner: Donald Judd – Untitled, 1988 Conjunto de 10 obras em azul ultramarino, feitas em papel Okawara sobre madeira.
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Na White Cube, o super aclamado escultor Antony Gormley, que investiga em seu trabalho a relação do corpo humano com o espaço.

De Londres, o destaque foi a White Cube, galeria conhecida por representar alguns dos maiores nomes da prestigiada geração inglesa dos anos noventa, que reúne artistas que participaram da famosa exposição Sensation, como Damien Hirst, Chapman Brothers e Antony Gormley. Distinguia-se ali a escultura de metal de Gormley, derivada de uma série de obras que tematizaram, durante muitos anos, o corpo humano, e que se desdobraram em uma interessante variação abstrata, assim como a exuberante pintura de Marc Quinn, The Eye of History: a representação da íris de um olho em uma tela circular, de dois metros de diâmetro, superposta com partes de um mapa do globo, em um excelente exemplo das possibilidades contemporâneas da pintura.

Entre as galerias nacionais, a galeria paulista Vermelho trouxe, entre outros nomes, André Komatsu, artista que representa o Brasil na bienal de Veneza deste ano, mas também a ótima obra de Chiara Banfi: seus desenhos sonoros – objetos realizados com elementos de instrumentos musicais, acoplados a um amplificador, e que podem ser manipulados pelo espectador – não apenas exploram a interação do público com a obra de arte (que remete à tradição neoconcreta de uma Lygia Clark ou de um Helio Oiticica), mas também visa apagar as fronteira entre as artes visuais e as artes sonoras.

A galeria carioca Inox apresentou, por sua vez, os surpreendentes trabalhos de Celina Portella: a artista, ao combinar os universos da performance, da videoarte e da fotografia, cria uma engenhosa intersecção entre a realidade e a ficção, questionando os limites entre o mundo físico e o mundo digital. Despidas de efeitos desnecessários, as imagens se atém àquilo que é essencial – o corpo da artista, e a relação que estabelece com o espaço interior das molduras ou dos monitores de vídeos, deixando claro que o seu verdadeiro tema é a ilusão.  

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Um dos pontos altos da feira, os vídeos de Celina Portella, na Galeria Inox. Na foto: Video-Objeto – monitor, trilho de ferro e automação

Modelo comercial bem sucedido há muitas décadas na Europa, as feiras de arte se tornaram também um acontecimento cultural importante em nossos dias. A despeito de não serem organizadas com fins educativos – afinal, por sua própria natureza, não possuem maiores informações sobre as obras e os artistas, não exibem nenhuma preocupação cronológica, nem são montadas para propiciar uma leitura organizada por parte do público –, as feiras permitem um contato direto com obras de alto nível, e sempre renovadas a cada ano. Assim foi na ArtRio 2015, que mais uma vez ajudou a arejar o ambiente artístico, e contribuiu para tornar a cidade um pouco mais cosmopolita.

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