Algumas palavras sobre Frank Stella

Frank Stella: a retrospective”, em cartaz desde o dia 30 de outubro no Whitney Museum, em Nova York, traz de volta ao centro das atenções aquele que foi um dos maiores personagens da arte dos anos 60, autor à época de uma obra notavelmente inovadora, e cuja arrojada economia de elementos foi um dos primeiros sinais de uma nova sensibilidade na arte do período, materializada posteriormente no movimento conhecido como minimalismo. Estas obras de juventude, entretanto, seriam apenas o começo de uma longa carreira, marcada por inesperadas e controversas mudanças de rumo, em uma trajetória de mais de cinco décadas que o público pode rever agora de perto.

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Frank Stella, na abertura de sua exposição “Frank Stella: A Restropective” que vai de 30 de Outubro de 2015 a 7 de Fevereiro de 2016, no novo Whitney Museum de Nova York

Neste período, a reputação de Frank Stella oscilou, transitando entre o prestígio e admiração máximos, por um lado, e a desconfiança e um certo desdém crítico quanto à sua obra de maturidade, por outro lado: entre estes dois extremos, é possível reconhecer uma obra voluptuosa, ininterrupta, e que tocou em muitos momentos em questões cruciais para a arte contemporânea, algumas das quais buscaremos esclarecer neste breve artigo

Stella chegou a Nova York, cidade recém catapultada à condição de capital internacional das vanguardas artísticas, em 1958, vindo de Princeton, onde estudou com colegas como Carl Andre e Michael Fried. Embora um grande admirador do expressionismo abstrato, movimento responsável pela posição de protagonismo assumida pela arte americana no pós guerra, Stella rapidamente entrou em contato com uma cena emergente ainda pouco conhecida – ele mesmo narra o impacto de uma visita feita ao atelier de Jasper Johns, que desde 1955 desenvolvia uma série de pinturas feitas a partir da imagem da bandeira americana, no que pode ser descrito como o início da pop art nos Estados Unidos. Ventos de mudança começam a soprar, e o jovem Stella, desenvolvendo em um primeiro momento uma pintura carregada, em que campos coloridos se alternam com listras irregulares, ecoando obras como as de Barnett Newman e Mark Rothko rapidamente elimina os elementos expressivos, como a gestualidade, a cor e o improviso.

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As Black Paintings de Stella, eliminando os elementos expressivos, como a gestualidade, a cor e o improviso.

O resultado foram as chamadas black paintings impessoais, minuciosamente calculadas, elas lograram realizar de maneira mais completa a vocação da pintura americana recente para a planaridade, ao mesmo tempo em que enfatizaram a relação entre as formas internas da pintura e o formato externo desta mesma pintura. O temperamento frio destas obras, com a repetição regular e mecânica de seus padrões, foi identificada como uma estética própria das novas sociedades altamente industrializadas, caracterizadas pela alta tecnologia, pelo trabalho cerebral e pela produção mecanizada – características que serão desenvolvidas, em graus variados, por outros grandes artistas minimalistas como Robert Morris, Carl Andre, Richard Serra e outros. Em seguida às pinturas negras, Stella aprofunda a relação entre as formas internas e o formato externo da pintura: as obras metalizadas feitas com tinta de alumínio, e depois de cobre, apresentam o conceito das telas formatadas (shaped canvas), tornando evidente a tridimensionalidade da tela, a sua condição escultórica. Em nosso ponto de vista, neste momento em que estas obras de Stella se projetam para o espaço real, elas abandonam a vocação planar da pintura modernista, para realizar outra vocação – a vocação da arte contemporânea para se misturar com a realidade. Em outras palavras, Frank Stella se situou, neste momento, nos limites entre a arte moderna e a arte contemporânea, colaborando decisivamente com o surgimento desta última, e isto certamente contribuiu para o amplo reconhecimento crítico que sua obra recebeu neste período.

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A tela assume sua condição escultórica e a cor metalizada começa a ser introduzida na obra do artista.

O advento do minimalismo funcionou como que uma confirmação de suas pesquisas, e lhe garantiram um lugar de grande destaque na vanguarda artística novaiorquina dos anos sessenta. O desdobramento de sua obra em meados desta década, entretanto, implicou grandes renovações em sua linguagem: a série de polígonos irregulares abandona a monocromia de suas primeiras obras, introduzindo intensas combinações de cor, ao mesmo tempo em que aprofunda o conceito das telas formatadas, com triângulos angulosos e quadriláteros variados recortando o espaço, e avançando pelas paredes.

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Curvas e círculos são introduzidos nas telas de Frank Stella, no final dos anos 60.

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Introdução da cor na série dos polígonos irregulares.
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A série “Polish Village” começou no início de 1970 como um esforço para trazer uma terceira dimensão a suas pinturas.

Nos últimos anos da década Stella introduz curvas e círculos, e no início dos 70 ele rompe com a superfície plana com a série Polish Village, até chegar aos relevos dos anos setenta, nas chamadas brazilian series, exotic birds series and indian birds series. Neste momento, o enorme prestígio adquirido com as pinturas dos primeiros anos já estava abalado sob acusações de decorativismo vazio, e o estilo extravagante que exibia, diametralmente oposto à discrição impessoal das pinturas negras, era a esta altura ironicamente chamado por alguns de Disco Modernism.

Stella reagiu com as monumentais obras dos anos 80: a série das Moby Dicks, híbridos de pintura e escultura que levam ao limite a investigação sobre as possibilidades tridimensionais da pintura, como as três obras das fotos abaixo. O título destas obras gigantescas se valem do personagem de contornos monstruosos de um dos mais importantes romances da literatura americana, a mítica baleia branca que, após infligir uma ferida terrível a Ahab, capitão de uma baleeira, é caçada pelo enfurecido inimigo em busca de vingança: metáfora da revolta do homem com um destino que lhe ultrapassa. Estas são obras caracterizadas pelo excesso: excesso de formas, de cores, de profundidades, atuando juntas em uma tamanha cacofonia de elementos que simplesmente nos impede de compreendê-la por inteiro: “sou um maximalista”, diz agora o artista, sobre estas obras.

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Assim, se é possível apontar acentuadas mudanças de rumo e inesperadas contradições ao longo das cinco décadas de produção deste artista, deve-se também reconhecer a lógica contínua e gradual que dirige sua longa trajetória, e que desde suas primeiras telas buscou questionar a condição bidimensional da pintura, e experimentar as possibilidades de torná-la tridimensional. Independentemente de eventuais altos e baixos, Frank Stella é um artista lúcido, corajoso e grandioso, e continua sendo uma referência de grande importância para a arte de nossos dias.

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No terraço do Whitney Museum, Wooden Star, escultura de 2014, uma estrela de grande massa feita em teca, marca presença esplendorosa sob o céu azul do outono nova iorquino.

Fotos: 5,6,7,9,10 e 11 (Cristiane Peixoto)

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