Damien Hirst: meditação sobre o abismo

Art’s about life, and it can’t really be about anything else … there isn’t anything else.”

Muitos grandes artistas tomaram, em algum momento de sua obra, a decadência do corpo, o envelhecimento ou a morte como tema. A inesquecível imagem espectral de O Juízo Final, suposto autorretrato do próprio Michelangelo como uma pele sem ossos ou músculos, pendendo da mão de um personagem abaixo e à direita do Cristo (fig. 1), é um exemplo – sem esquecer que nesta cena, um “juízo final”, os personagens estão sendo divididos entre os que vão para o céu ou para o inferno cristão, e, portanto, devem mesmo estar todos mortos. Cenas de cadáveres repletos de feridas, de sepultamentos, e de cabeças cortadas, povoam a obra de artistas como Grunewald, Rafael e Caravaggio. Os autorretratos de Rembrandt constituem, em seu conjunto, uma reflexão sobre a passagem do tempo e a transitoriedade da vida, enquanto que Saturno devorando seus filhos, uma das maiores obras primas de Goya, é uma alegoria sobre a finitude: Cronos (Saturno para os romanos) é o deus do tempo, que devora todos os filhos que gera – ou seja, nós mesmos, e tudo o mais que participa da realidade.

fig. 1

O fato de que o tempo escorra, e que conduza necessariamente aquilo que é vivo à morte, constitui uma angústia fundamental do ser humano. Inquietamo-nos profundamente com a consciência de que deixaremos, em algum momento, de existir; revoltamo-nos contra a brevidade da existência, e nos desesperamos com a incerteza acerca do que seja estar morto. Estancar este processo de envelhecimento e morte é um antigo desejo irracional do ser humano, que reconhecemos nos corpos embalsamados dos faraós egípcios, no mito medieval da fonte da juventude, assim como nas modernas técnicas de cirurgia plástica. O artista britânico Damien Hirst, ao apresentar como obras de arte corpos de animais embalsamados, aborda cruamente esta questão, de tal maneira que a aparência asséptica, distanciada, quase científica, de muitas destas obras não consegue camuflar por muito tempo a perplexidade com a morte, assim como a obsessão e o desespero que estão por detrás delas. Em outras palavras, a obra de Hirst é uma longa, meticulosa e variada meditação sobre este abismo incompreensível e indesejável, mas que diz respeito a cada um de nós, pois todos mergulharemos nele em um momento derradeiro – aquele em que cessaremos de existir.

Natural History é o nome desta que é, possivelmente, a mais conhecida de suas séries de trabalhos, da qual faz parte o célebre tubarão: o nome desta peça, The physical impossibility of death in the mind of someone living (fig. 2), faz referência direta ao tema, e demonstra a forma peculiar com que Hirst relaciona título e obra – permeados pela reflexão sombria, pelo humor negro, e por uma perspectiva francamente materialista e antimetafísica da morte – afinal, em suas próprias palavras, “…art’s about life, and it can’t really be about anything else … there isn’t anything else.” Em Away from the flock (fig. 3), a ovelha morta está de fato apartada do rebanho – todas as outras ovelhas, vivas. Mother and child (fig. 4) atualiza com um sarcasmo cortante o tradicional gênero da madona com a criança, tão em voga durante o renascimento italiano. Com This little pig went to the market. this little pig stayed at home (fig. 5), Hirst distorce o sentido da velha canção de criança, conferindo-lhe um sentido macabro. Em The kiss of death, a iconografia cristã reaparece no tema do sagrado coração, na forma de um coração de boi atravessado por uma adaga e amarrado por fios de arame farpado: o que pode fazer a religião diante da morte, a não ser pálidas e desacreditadas promessas de vida eterna?

fig. 2

fig. 3

fig. 4

fig. 5

Mas a obra de Damien Hirst é rica e variada, oferecendo inúmeras outras abordagens sobre a questão da morte. As séries Medicine cabinets, Pill cabinets, assim como a pintura-objeto The eternal (fig. 6), em que cápsulas de vários tipos de remédio são dispostas sobre uma tela branca, nos trazem questões análogas: e quanto à ciência, o que devemos esperar dela? Pode esta ciência deter, ou ao menos retardar, o processo de decadência física? O irônico mergulho neste mundo de fármacos e pílulas cartesianamente organizados em armários higienizados acaba por nos lembrar da fragilidade de nossa ciência e nossa técnica, as quais, por mais que tenham se desenvolvido, oferecem apenas soluções provisórias, e permanecem impotentes diante da finitude humana. Ou ainda a série Instrument cabinets, com obras como Stripteaser (fig. 7), um armário em que instrumentos cirúrgicos se misturam com esqueletos humanos, e cujo título cômico, recheado de mórbida ironia, complementa o seu sentido – pois a morte a tudo desnuda.

fig. 7

 

fig. 6

A leveza aparente da série Butterfly colour paintings não se sustenta por muito tempo: a beleza das borboletas é contradita pelo fato de que não estão mais vivas, como em um emblema da efemeridade da beleza, da juventude e da vida. As Fly paintings, ao contrário, nos trazem imediatamente a imagem repugnante do aglomerado de moscas, que normalmente acontece em torno de animais mortos e de sua carne putrefata. As Biopsy Paintings são fotografias ampliadas de tecidos cancerosos, e, como em um horripilante compêndio de medicina, expõem alguns dos modos pelos quais se morre. Já as Fact Paintigs (fig. 8) constituem um conjunto de pinturas realistas com variados temas hospitalares: seringas, equipes médicas em ação, o coquetel de remédios para portadores do vírus HIV, seu próprio filho nascendo, ou ainda um autorretrato vestido como cirurgião.

fig. 8

Em Scalpel blade paintings (fig. 9), Hirst constrói belas composições com lâminas e estiletes cirúrgicos, à maneira de mandalas e padrões orientais, com um resultado ao mesmo tempo luxuoso e hipnótico, enquanto que nas Black scalpel cityscapes o artista reconstrói vistas aéreas de grandes cidades (inclusive o Rio de Janeiro). Nas Enthomological paintings, o uso de borboletas conservadas à maneira de um laboratório científico encontra a sua melhor expressão: painéis de formas simétricas, com um colorido complexo e texturas sofisticadas, transformam técnicas e procedimentos da entomologia em poemas sobre a brevidade da existência (fig. 10).

fig. 9

fig. 10

Enfim, a obra de Damien Hirst é bem mais numerosa e variada do que teria sido possível enfocar neste breve artigo. O seu tema fundamental, a contundência de seus trabalhos, e a riqueza de abordagens e perspectivas pelas quais suas ideias se concretizam, constituem um dos mais impressionantes testemunhos artísticos de nossa contemporaneidade, de forma que a polêmica em torno de sua agressiva inserção no mercado mundial das artes, de suas estratégias de marketing, bem como de sua atuação midiática, não deve servir para ofuscar seu verdadeiro valor artístico. Damien Hirst trata de um assunto absolutamente universal, e é muito bem sucedido em transmitir com inventividade e irreverência este espantoso e irrevogável aspecto da condição humana: a de que toda vida tem um fim.

 

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2 comentários

  1. Adorei o texto. É um artista realmente fascinante e tenho muita afinidade com o seu tema principal, a morte. Pesquisando sobre ele acabei chegando a Francis Bacon e me identifiquei profundamente com suas obras das décadas de 30 e 40, fiquei absolutamente fascinada. E Francis Bacon me levou a Velásquez. Comparar as referências dos artistas e seus próprios desenvolvimentos e refleções é emocionante.

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