O desenho na Arte Contemporânea

Podemos caracterizar a contemporaneidade como sendo, entre outras coisas, um momento da arte em que em que se torna possível que as obras de arte se misturem com os objetos e os espaços da vida comum, explorando os limites entre a arte e o mundo real; e uma das consequências desta condição é a proliferação de novas mídias e linguagens disponíveis aos artistas. Assim, novos termos e categorias como objeto, instalação, performance, videoarte, arte sonora, e outros, ampliaram de maneira contundente as possibilidades técnicas dos artistas, e se impuseram como meios tão legítimos como as tradicionais categorias da pintura, do desenho e da escultura. Neste breve artigo, levantamos a seguinte questão: como reagem estas antigas disciplinas, ou mais especificamente o desenho, a este estado de coisas atual? Como respondem os artistas às possibilidades de integrar as técnicas e características do desenho aos espaços e objetos cotidianos, renovando esta antiga disciplina, e inserindo-a no contexto contemporâneo das artes? Analisaremos a seguir alguns excelentes exemplos.

Em 1953, em um período em que as práticas artísticas que caracterizam a contemporaneidade apenas se insinuavam, um ainda iniciante Robert Rauschenberg produziu o hoje célebre “Desenho apagado de De Kooning” (imagem 1): nesta obra, o jovem artista apaga o desenho do grande mestre, como um poema protoconceitual que sinaliza a ultrapassagem do expressionismo abstrato, o mais bem sucedido movimento artístico americano até então, e em plena vigência no momento, por uma nova geração de artistas.

imagem 1
“Desenho apagado de De Kooning”, obra do jovem Robert Rauschenberg de 1953

Ao final dos anos 50 e início dos anos 60, o artista francês Yves Klein desenvolveu uma famosa série de obras conhecidas como as “Antropometrias”, em que tintas azuis eram espalhadas nos corpos de modelos nuas, e depois impressas ora sobre lonas, ora sobre papéis. A série abrange tanto desenhos como pinturas, e se caracteriza pelo uso do corpo humano, e não de pincéis, para a aplicação da tinta sobre a superfície, em uma sedutora intersecção entre o desenho (e a pintura) e a performance.

“Antropometrias” de Yves Klein, uma sedutora intersecção entre a representação e a performance.

Sol Lewitt, destacado artista do minimalismo, desenvolveu longa e prolífica atividade em desenho, não apenas nos projetos de suas conhecidas esculturas, mas também em obras murais, explorando a relação entre o desenho e a arquitetura . Realizados diretamente na parede com uma fina textura rabiscada com bastões de grafite, a obra incorpora práticas e materiais próprios da tradicional técnica do desenho à proposta de executá-lo diretamente na arquitetura, expandindo seus limites para além da superfície de papel usualmente associada à esta mídia. Em alguns trabalhos, a transição da tonalidade vai se completando à medida que a mancha uniforme se aproxima de seu limite físico, o final da parede que lhe serve de suporte , enquanto em outros  o impacto da obra de Lewitt se propaga para além da superfície, e ressoa pelo ambiente como um todo: um desenho ou uma instalação?

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A pintura mural do minimalista de Sol Lewitt: a arte se confunde com a arquitetura.

 

 

 

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A parede como suporte de uma fina textura rabiscada com bastões de grafite.

O compositor John Cage, figura lendária das vanguardas artísticas dos anos 50 e 60, se tornou conhecido por polêmicas composições musicais, como a famosa 4’33”, em que a orquestra fica em silêncio durante quatro minutos e trinta e três segundos, abrindo espaço para que os ruídos casuais do mundo real apareçam e sejam percebidos: o som da vida se torna a obra, e passa a ser entendido como uma peça musical. No período final de sua vida, Cage desenvolveu encantadora série de desenhos intitulada River, Rocks and Smoke : realizada em plena natureza, na Virginia, e inspirada no zen budismo, o artista impregna estas obras com vestígios do ambiente ao mergulhar o papel na água de um rio, ao criar manchas com a fumaça de uma fogueira (segundo uma duração determinada pelo I-Ching, o livro divinatório chinês), e ao pintar o contorno à volta de pedras pousadas sobre o papel. Com este procedimento, a vontade do artista como que se anula, pois a imagem resultante não depende mais do seu gesto – quem desenha é a própria natureza, como se o cosmos fosse o autor.

Desenhos de Cage: obra impregnada pelos vestígios que a natureza imprime sobre o papel.

Embora muito distintas entre si, as obras de todos estes artistas exibem estratégias típicas da nossa contemporaneidade, mostrando como o desenho pode ser pensado atualmente; pela qualidade que apresentam, não deixam dúvidas sobre a relevância que esta antiga disciplina conserva nos dias de hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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