A imagem rebelde

O mundo viveu há alguns anos atrás uma onda de manifestações populares que se espalhou por vários pontos do globo. A chamada primavera árabe varreu o norte da África, levando enormes fatias da população da Tunísia, do Egito e de outros países da região às ruas; mas também em lugares tão diversos como a Turquia, a Grécia, a França, a Inglaterra e o Brasil foram vistas multidões de manifestantes, com uma diversificada pauta de reinvindicações que variava de acordo com os interesses locais. Espontâneas e apartidárias, estas manifestações colocaram em evidência as novas formas de comunicação disponibilizadas pelo avanço da internet e das mídias sociais, que tornou visível a voz de milhões de pessoas até então excluídas das discussões da política oficial.

A eficácia destes movimentos populares variou enormemente, e produziu desde a queda de alguns governos até uma violenta repressão por parte de outros. Independentemente do desfecho de cada um deles, tais movimentos mostraram ao mundo, enfim, um novo modelo de rebeldia, uma forma contemporâneo de revolta, marcada pelo dramático aumento da capacidade de mobilização popular _ e das convulsões espontâneas, amorfas e imprevisíveis que esta nova capacidade de mobilização se mostrava capaz de gerar. Milhares de imagens destes novos insurgentes rodaram o planeta, materializadas em fotografias e filmes feitos por fotógrafos e cinegrafistas profissionais, ou por celulares de participantes ou testemunhas das manifestações _ mas também em obras de artistas importantes, como na série History Paintings, ou na escultura de concreto Id, ambas de autoria do artista inglês Marc Quinn. Vemos ali os acontecimentos históricos recentes, e os personagens que os protagonizaram: metáfora da condição transgressora da arte?

marc_quinn_history_Rio de Janeiro 17 june 2013A obra Rio de Janeiro, 13 de setembro de 2013, da série History Paintings, de Marc Quinn: a rebeldia anárquica que tomou as ruas do mundo nos últimos anos também invadiu a “cidade maravilhosa”, sinalizando a insatisfação com os rumos do país.
marc_quinn_idMarc Quinn, Id, escultura em concreto, 2012.

O rebelde anônimo também aparece de maneira recorrente na obra de Banksy, como nesta obra contundente e delicada em que um manifestante mascarado parece atirar um coquetel molotov _ mas o que atira é, na verdade, um buquê de flores. Nesta obra, Banksy critica a violência como meio, oferecendo a gentileza e o afeto como alternativa para a luta. Já na obra do artista espanhol Pejac, o manifestante atira sua bomba explosiva na parede, revelando a sua verdadeira munição: Le dejeuner sur l’herbe, obra iconoclasta por excelência. De fato, encontramos em todas estas obras este novo ator, o rebelde anônimo, o qual, uma vez trazido para o mundo da arte, realmente parece evocar uma capacidade de insurgência que parece existir, ainda que latente, em cada grande obra da história da arte.

banksyAs pinturas urbanas de Banksy (acima) e Pejac (abaixo)

pejac

A divertida pintura sobre espelho de Michelangelo Pistoletto traz a imagem do insurgente em outro contexto, colocando-o por alguns segundos (apenas o tempo suficiente para que nossa percepção desmonte a farsa) ali, à nossa frente, atirando pedras em plena sala de exposição: neste caso, uma provocativa reflexão sobre os limites entre a arte e a realidade.

Enfim, seja como for, quer se manifeste de maneira mais ou menos evidente, esta capacidade libertária parece mesmo ser, ao fim e ao cabo, uma qualidade intrínseca da arte de todas as épocas, presente em obras de todos os tempos históricos; por isto, o blog Artmotiv encerra este texto lembrando de uma que está entre suas preferidas: a obra de 1968 To the police, do artista brasileiro Antonio Dias, em que uma peça de bronze simula uma pedra a ser atirada por um manifestante, endereçada ao inimigo da hora, durante a repressão no Brasil. Os tempos mudaram, a ditadura se encerrou, mas o potencial de transgressão da obra continua o mesmo, expressando o inconformismo, a rebeldia e a insubmissão ao status quo.

 

À esquerda, a obra de Michelangelo Pistoletto, pintura sem título sobre espelho, 2010 (aproximadamente). À direita, To the police, escultura de Antonio Dias, de 1968

 

 

 

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