Tate Modern: exemplo de política cultural de alto nível.

Inaugurada no ano 2000, a Tate Modern rapidamente se impôs como uma referência no mundo da arte contemporânea. Conhecida pela magnitude de sua antiga arquitetura industrial, sua sede foi à época remodelada pelos arquitetos Herzog & Meuron (que assinam também a atual expansão),  e passou a abrigar um dos mais amplos e significativos acervos internacionais da arte moderna e contemporânea, além de realizar grandiosas exposições temporárias que ajudaram a consagrar muitos dos grandes nomes da arte atual.

Agora a notável instituição se reinventa, repensando seu papel em um mundo em constante mutação. “A arte muda, nós mudamos”: este foi o slogan que norteou o ambicioso projeto de ampliação da Tate Modern. Em junho último o espaço foi inaugurado ao custo de R$ 1,2 bilhão de reais, entregando aos habitantes de Londres não apenas uma incrível obra arquitetônica, mas principalmente um projeto de ampliação de seu acervo, a partir de uma política de aquisições esclarecida e inovadora.

O aspecto arquitetônico do empreendimento é realmente notável: trata-se de um prédio anexo, incrustrado na antiga estrutura original, que amplia em cerca de 60% a capacidade das galerias. Chamada de Switch House, a arrojada estrutura piramidal se projeta como uma torre para uma altura muito acima da tradicional Turbine House, e com sua forma retorcida estabelece definitivamente um novo marco urbanístico na sofisticada capital inglesa.

Mas, aqui entre nós, habitantes destes longínquos trópicos, o que realmente salta aos olhos neste momento é a importância com que a instituição encara a renovação de sua coleção permanente. Esta coleção, constituída ao longo dos anos, é fruto de uma política de aquisições consciente, fundamentada em um profundo conhecimento da arte produzida nas últimas décadas. O resultado foi a construção de uma coleção excepcional, capaz de contar para um público jovem, e com obras de altíssimo nível, uma boa parte da história recente da arte.

Mas agora, não satisfeita com a riqueza do acervo constituído nos últimos anos, a instituição planeja a sua ampliação, em busca de espelhar as grandes transformações em curso no mundo. Antes focada principalmente em artistas do eixo anglo-americano e da Europa ocidental, a Tate agora se volta para artistas da América Latina, da África, do Oriente Médio e da Ásia. Nas palavras de Frances Morris, a principal responsável pela curadoria, o objetivo é exibir uma maior variedade de obras de artistas do mundo todo, mas também buscar uma maior representação de artistas do sexo feminino, assim como abrir mais espaço para fotografia, dança, performances, videoarte, instalações e obras interativas. Ou seja, a Tate pretende se tornar mais cosmopolita, além de fomentar uma maior participação das mulheres e de promover a inclusão de novas mídias.

O fato de que uma das mais celebradas instituições artísticas do mundo desde os anos 2000 busque promover tamanha reformulação em seu espaço e em sua coleção, visando repensar a sua participação em um planeta em constante mudança, deixa clara a seriedade desta instituição em relação ao seu papel na vida das pessoas da cidade. Criar um edifício como este não é algo apenas sobre o aqui e agora, mas é sobre o futuro: nas palavras de Nicholas Serrota, diretor do museu, “…it is vitally important that every child in the UK should see the art of the past and the art of our own time, wherever they are. We must, in spite all the pressures, sustain and develop our museums, stimulating and nurturing aspiration for future generations.” Fica claro que estamos falando aqui não apenas da educação das novas gerações, mas da construção de um capital espiritual, de um patrimônio simbólico comum, capaz de enriquecer de sentido a vida de muitas pessoas; de tornar estas vidas, e as sociedades em que elas vivem, melhores.

Não é suficiente construir edifícios incríveis sem que se construam também acervos de alto nível, e uma programação de muita qualidade. Convidar grandes arquitetos internacionais e gastar fortunas com obras faraônicas, deixando tais equipamentos vazios por dentro, ou ocupando-os com acervos ou programação de qualidade duvidosa é apenas populismo barato, coisa que temos visto com incômoda frequência na cidade do Rio de Janeiro. Precisamos urgentemente abandonar este velho populismo, e abraçar algo novo: políticas culturais de verdade.

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