32ª Bienal de São Paulo: a natureza no centro do debate

 

A natureza sempre foi um tema privilegiado da arte, e para fundamentar esta afirmação bastaria lembrarmos da longa tradição de artistas que consagrou a paisagem como um gênero tão respeitado como o costumavam ser as cenas religiosas, históricas ou mitológicas, em tempos passados. De Joachim Patinir (exímio observador do mundo natural, e pioneiro de uma tradição paisagística que desembocará na obra de um autor riquíssimo como Peter Bruegel, na Flandres do século XVI, e também na escola holandesa do século XVII), passando pelas paisagens românticas de um Turner, ou pelo impressionismo de Monet, no século XIX, ou ainda por fauvistas e expressionistas, ou mesmo até a nossa contemporaneidade, com figuras como Richard Long ou Andy Goldsworthy, a natureza sempre foi motivo de grandes especulações para os artistas. Fosse como objeto de observação rigorosa, como metáfora do sublime, ou ainda como tema de uma reflexão metafísica, a arte da paisagem produziu ao longo dos séculos, enfim, algumas das mais memoráveis obras da história da arte – e, como podemos ver na 32ª Bienal de São Paulo, continua a dar frutos robustos ainda em nossos dias.

“Incerteza Viva”, o título desta bienal que acontece atualmente no tradicional pavilhão de Oscar Niemeyer, já traz no nome a questão da natureza. Não que a vida orgânica seja o único tema desta mostra grandiosa, pois as incertezas vivas do título dirigem-se também à atmosfera de instabilidade social, política e econômica que vivemos no mundo, além da ambiental. Entretanto, a investigação sobre a relação entre as sociedades humanas e a natureza, em nossos dias incertos e conturbados, representa possivelmente a contribuição mais original desta bienal.

Desde seu princípio, a natureza dá o tom: vindos dos jardins do Parque Ibirapuera, adentramos o grande salão do andar térreo para circular entre a floresta de árvores calcinadas de Franz Krajcberg, que traz consigo o incontornável aspecto de denúncia e de ativismo ecológico; em um bem-sucedido resgate da obra deste artista, estes troncos queimados se erguem pelo altíssimo pé direito do espaço, dialogando com as árvores do parque, e também com as colunas do pavilhão.  A seu lado, a construção indígena de Bené Fonteles, com o sugestivo nome “Ágora: OcaTaperaTerreiro”, propõe uma superposição de culturas e saberes que caracterizam diferentes extratos sociais do país. Em seu interior encontramos uma coleção de objetos que remetem a obras e personagens espiritualmente importantes em diferentes grupos sociais brasileiros, como pajés indígenas, compositores de música popular ou grandes escritores modernistas. Sem estabelecer hierarquias entre os vários tipos de saberes, Bené Fonteles promove antes um entrelaçamento entre estas diversas culturas e religiões, construindo como que um altar, plural e sincrético, em que a experiência do sagrado se realiza da maneira mais impactante quando se lê as palavras de Davi Kopenawa, pajé yanomâmi, escritas na estrutura de madeira que sustenta a construção, e que sintetizamos aqui: Omame, espírito criador de tudo, foi esquecido pelo homem branco; e porque Omame também é artista, pois além da natureza, criou também a dança, a música e a pintura, os artistas devem ajudar o homem branco a se relembrar de Omame, e de como ele se manifesta.  Segundo esta declaração, portanto, é também tarefa da arte nos reconciliar, de alguma maneira, com o princípio criador da natureza.

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“O peixe” filme em 16 mm de Jonathas de Andrade

O filme de Jonathas de Andrade, um pouco à frente, nos mostra pescadores exercendo seu ofício, no interior do Brasil. Utilizando técnicas ancestrais, passadas de geração em geração, os pescadores pacientemente esperam, até que finalmente capturam o peixe e trazem-no para seus barcos, cumprindo uma rotina banal; neste momento, a direção do artista intervém: cada um dos pescadores abraça sua presa, acariciando-a, embalando-a, enquanto aguarda o desfalecimento final do animal. O gesto inesperado dá o sentido do filme, pungente e delicado, transformando-o em uma reflexão sobre o modelo predatório de exploração da natureza que caracteriza as sociedades industriais, e sugerindo a possibilidade de travarmos um relacionamento mais respeitoso com o meio ambiente.

A artista inglesa Ruth Ewan traz uma ótima contribuição para este debate, ao basear seu trabalho no calendário instituído pela revolução francesa, em 1792, como forma de romper com a ordem antiga, e estabelecer os princípios de uma era inteiramente nova. Anticlericais, os revolucionários recusam a contagem e a nomenclatura do calendário gregoriano, e fundam sua própria forma de contagem do tempo baseada diretamente nos ciclos da natureza. Os novos nomes dos meses foram propostos por um poeta e um botânico, e faziam referência às diferentes épocas do ano, às suas condições atmosféricas, ou às colheitas, por exemplo. O trabalho de Ewan consiste de um estrado de madeira que, dividido em quatro partes, ou estações, exibe esta nova nomenclatura, mas também as plantas, frutas ou ferramentas ligadas às colheitas características de cada período. Importa aqui reconhecer uma maneira de contar a passagem do tempo inteiramente ligada aos ciclos da terra, às atividades da sua lida; e também, por contraste, o nosso distanciamento dessa experiência direta com a natureza. O vilão deste afastamento certamente não é o calendário gregoriano, que terminou por ser adotado majoritariamente no mundo ocidental, mas sim o estilo de vida do homem nas sociedades modernas – e é assim, apartados desta experiência vital, arquetípica, com a terra, que enfrentamos globalmente, no século XXI, o maior desafio ambiental da história humana. É difícil não pensar, aqui, que sim; faz-se absolutamente urgente revisar esta nossa desconexão com o meio ambiente, em busca de construir uma relação mais inteligente e promissora.

Já a artista portuguesa Carla Filipe criou, em um terraço a meio caminho entre o edifício e o parque, um excêntrico jardim, onde plantas comestíveis pouco conhecidas nascem em canteiros inusitados: barris de metal, como galões para transporte de substâncias químicas; grandes manilhas de concreto, próprias de obras de infraestrutura urbana; enormes pneus de tratores e máquinas pesadas, de vários tamanhos e formatos. Em outras palavras, um sugestivo encontro entre elementos da natureza, por um lado, e elementos próprios da paisagem urbana das grandes civilizações industriais em que vivemos, por outro lado. De maneira inteligente e poética, esta obra aponta para a possibilidade de coexistência entre estes polos antagônicos, integrando ambos em um único sistema equilibrado.

À esquerda, o calendário de Ruth Ewan e na foto seguinte o jardim excêntrico da portuguesa Carla Filipe.

Jorge Menna Barreto nos propõe como obra o restaurante Restauro, que serve receitas baseadas em plantas, e atende ao público da bienal. Os produtos destas receitas são fornecidos por agroflorestas, que são sistemas sustentáveis de produção, comprometidos com a recuperação dos solos e a biodiversidade. Como diz o catálogo, “…por meio dos alimentos, o artista traz a floresta para a exposição e convoca o comensal a se tornar um participante do sistema agroflorestal… ”. Desta maneira, o simples ato de almoçar na bienal implica o visitante nesta grande performance, que tem ainda o mérito de evidenciar que a proposta de revisão de nossos modos de vida, de produção e de consumo não são uma mera fantasia utópica, mas sim possibilidades concretas, com novos modelos a serem perseguidos.

Um dos grandes destaques da exposição certamente é Lais Mirrha, que participa com duas torres gigantescas situadas no vão entre as rampas sinuosas dos três andares do pavilhão. Monumentais, as duas torres atravessam os diferentes níveis, e realizam a façanha de impor de maneira indiscutível a sua presença no espaço arquitetônico marcante de Niemeyer; mas não se trata apenas disto: rapidamente se percebe que uma das torres é construída com materiais utilizados nas edificações urbanas, como tijolos, concreto, vergalhões de ferro, telhas, etc…; enquanto a outra é feita de materiais utilizados nas edificações indígenas, como palha, madeira, terra, bambu, folhas. O título, “Dois Pesos e Duas Medidas”, alude à diferença entre os pesos de cada torre, uma muito pesada, a outra muito leve, comparativamente; mas alude também ao sentido do ditado popular, que se aplica à adoção de critérios distintos para avaliar duas situações similares: no caso, diferentes práticas e saberes que se confrontam, falsamente equivalentes; dois grandes eixos civilizatórios, com pesos muito distintos na construção do país.

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Um dos destaques da 32a Bienal, as torres de Lais Mirrha, que participa com duas torres gigantescas situadas no vão dos três andares do pavilhão.

Ainda poderíamos citar a trompa bizarra do argentino Eduardo Navarro, que, projetada para fora das vidraças do edifício, nos permite ouvir os ruídos (pios vindos de um ninho de pássaro; vento mexendo a folhagem)  de uma árvore muito alta, de outra maneira inacessível; ou os casos de tribunais trazidos por Ursula Biemann & Paulo Tavares, que documentam vitórias obtidas por índios do Equador, que terminaram por consagrar a natureza como um novo sujeito jurídico; ou ainda as divertidas batatas de Victor Grippo, das quais ele extrai energia, mensurável em um medidor disponível para o público; ou ainda muitas outras obras. Em boa parte delas, está presente não apenas a denúncia do domínio predatório que o homem exerce sobre a natureza, mas também a reflexão propositiva, capaz de apontar caminhos possíveis para superar a exploração irracional do meio ambiente que tem nos caracterizado como espécie, e que nos trouxe à beira de uma catástrofe ecológica anunciada.

Enfim, a competente curadoria de Jochen Volz e equipe é responsável por um evento cultural da maior importância, mirando em grandes questões políticas, sociais, culturais e, principalmente, ambientais, tema que escolhemos para nos alongar neste breve artigo. A 32ª Bienal Internacional de São Paulo reafirma sua vocação experimental e questionadora, assumindo o papel de instrumento de reflexão sobre os grandes desafios que enfrentamos em nossa contemporaneidade, na busca de transformar a nossa realidade para melhor. Ainda há tempo para isso.

 

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