Mondrian e os números

mondrian-piet_composition_1930A exposição ora em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro do pintor holandês Piet Mondrian é ótima oportunidade para ver ao vivo as obras deste grande mestre – artista chave no desenvolvimento do modernismo europeu, e uma referência crucial para os mais importantes movimentos artísticos do pós-guerra, como por exemplo o expressionismo abstrato norte americano, ou o neoconcretismo brasileiro.

A exposição procura traçar seu percurso desde seu período de formação, enfocando também as influências que recebe do expressionismo e do cubismo, até o momento de criação do De Stijl, a partir do qual Mondrian atingirá a liberdade criativa. Embora não seja uma exposição grandiosa na quantidade de trabalhos, permite, entretanto, tomar, ou retomar, contato direto com suas obras, entre elas três belos exemplares de seu estilo de maturidade.

Aproveitamos então a ocasião para relembrar um ponto crucial de seu desenvolvimento intelectual e artístico: o encontro com o matemático e filósofo Mathieu Schoenmaekers, quando de seu retorno para a Holanda, em 1914. Vindo de Paris, Mondrian trazia consigo o enorme impacto causado pelo cubismo de Picasso e Braque, que o havia afastado definitivamente das experiências expressionistas de anos anteriores. Encontramos em obras deste período a abordagem analítica do cubismo, bem como a sua inclinação para simplificar a realidade em linhas estruturais que beiravam a imagem abstrata. O encontro com as ideias de Schoenmaekers, a partir de 1915, fornecerá as condições perfeitas para que Mondrian conceba o novo projeto, pelo qual abandonará de vez o quadro de referências do cubismo, em nome das novas promessas da arte abstrata. Mas afinal, quem era Schoenmaekers, e que ideias trouxe para Mondrian?

Matemático e filósofo de extração neoplatônica, além de teólogo de forte tradição católica, Mathieu Schoenmaekers escreveu livros como Princípios de Matemática Plástica, ou A Nova Imagem do Mundo, em que interpretou de maneira própria a longa tradição racionalista do ocidente, que deita raízes na Grécia antiga. Afinal, já entre os filósofos pré-socráticos encontramos o amor e o espanto pela estabilidade das verdades matemáticas, que contrastavam com a condição transitória da nossa experiência no mundo sensível. À constatação de que a realidade seja intrinsecamente instável – que tudo flua, como diz a conhecida sentença de Heráclito –, e que tudo que está inserido no tempo esteja submetido à lei inexorável da mudança, se contrapôs o encantamento pela invariabilidade das relações entre os números, pelas quais se acreditou acessar uma dimensão estável, duradoura e universal. Como se fosse um oásis, os gregos antigos enxergaram nestas verdades imutáveis da razão uma dimensão de pureza que não encontramos no mundo da experiência sensível, todo ele arrastado pelo fluxo de impermanência que caracteriza o devir, com seu incessante ciclo de criação e destruição. As verdades da razão escapam à esta lei do devir, e se mantém perenes, sempre iguais e eternamente válidas, em sua dimensão metafísica; sua condição imaterial, suprassensível, fundamentou o amor grego pela medida e sua concepção de que a realidade é presidida por uma ordem racional. Foram Pitágoras, Parmênides e Platão (com as noções, respectivamente, de número, de ser e de ideia) que melhor expressaram este racionalismo metafísico, que de resto se espalha pela cultura grega como um todo, inclusive na arte. Neste caso, o naturalismo das esculturas do século VI e V a.C. foi tomado por proporções matemáticas, com o intuito de produzir imagens ideais, dotadas de medidas regulares, e de uma beleza que se pretendia superior à da própria natureza, inaugurando a arte clássica.

É fácil constatar que em nossas modernas sociedades ocidentais esta abordagem da racionalidade metafísica foi substituída por uma nova abordagem da razão, de caráter técnico-científico, ou pragmático-materialista; mas ela persistia em certos círculos. Cézanne dizia em cartas que (em uma transcrição livre) olhava a natureza, mas só via cilindros, cubos e cones. Tratava-se de abandonar a pintura do mundo das aparências, tão intensamente trabalhado pela pintura impressionista, para buscar o mundo – geométrico – das essências por detrás.  Schoenmaekers, pleno de inclinações neoplatônicas, reinterpreta no início do século XX aquela racionalidade metafísica, impregnando-a com suas referências como matemático, e à luz de suas concepções teosóficas do mundo. Em suas próprias palavras, no livro “A Nova Imagem do Mundo”, os “…dois contrários fundamentais completos que dão forma à Terra são a linha horizontal de energia, isto é, o curso da Terra em redor do Sol, e o movimento vertical, profundamente espacial, dos raios que se originam no centro do Sol…”. Eis, para Schoenmaekers, a forma elementar, a estrutura última da natureza: o encontro entre a linha horizontal e a linha vertical, ou o “eixo ortogonal”.

Portanto, quando Mondrian, oriundo de experiências cubistas em Paris, entra em contato com estas ideias em sua volta para a Holanda, ele ganha fundamentos filosóficos para abandonar este cubismo, e se lançar na aventura abstracionista. Não se trata mais de partir da realidade aparente, como o cubismo, mas de buscar a estrutura fundamental da natureza, a sua essência, que intuímos ou encontramos por detrás das aparências. O guia desta nova plástica é o entrecruzamento entre as linhas horizontais e as verticais, que encarna em sua pintura a própria imagem última da realidade; ou, em outras palavras, a síntese plástica do universo, ou a forma-símbolo do cosmos.

Mais à frente, na mesma obra, Mathieu Schoenmaekers afirma que ”…as três cores principais são essencialmente o amarelo, o azul e o vermelho. São as únicas cores existentes…o amarelo irradia, o azul recua, e o vermelho flutua…”. Ou seja, estas cores, chamadas primárias, uma vez misturadas ( e eventualmente somadas ao branco e/ou o preto), são capazes de produzir todas as outras; uma cor que não seja primária, se decomposta em suas componentes, necessariamente nos levará a duas ou mais primárias, presentes em determinadas proporções. Em suma, o azul, o amarelo e o vermelho, as cores irredutíveis (às quais não se chega pela mistura de nenhuma outra), encarnam a síntese das cores da natureza.

Quanto à questão compositiva, suas estruturas são cuidadosamente assimétricas, e se definem também pelo tamanho do espaço que cada campo colorido exige para si. O enorme leque de variações que encontramos destas composições em sua obra mostram a importância desta assimetria em seu diálogo com estrutura e cor; e, da mesma maneira que o eixo ortogonal sintetiza a estrutura profunda da natureza, e as cores primárias sintetizam as cores que encontramos na natureza, a composição assimétrica sintetiza também, de alguma forma, o movimento desta mesma natureza. Cada composição desigual como que cristaliza algo, um ponto, um momento, do turbilhão das coisas em sua constante dinâmica de modificação.

Em resumo, por trás do abstracionismo de Mondrian existe a filosofia da natureza idealizada por Schoenmaekers que busca intuir a essência racional da realidade, e expressá-la plasticamente em termos de uma geometria rigorosa. Se olharmos bem, ali está o mundo como o conhecemos – feroz, dinâmico e turbulento, mas traduzido em silenciosas e abstratas gotas idealizadas de realidade.

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