Tradição e modernidade vindos do sudeste asiático

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Fluxo de números digitais em constante mudança: metáfora da condição transitória de nossas vidas. Obra de Tatsuo Myajima.

A relação entre tradição e modernidade é um dos temas mais instigantes levantados pela arte contemporânea do sudeste asiático, nos dias de hoje. Em um momento em que a relevância desta parte do globo no processo de pensar os desafios do processo civilizatório se torna preponderante – tanto por seu novo peso econômico, por suas contribuições no trato com a tecnologia, como pela dimensão voraz destas sociedades no consumo dos recursos naturais do planeta –, a energia dinâmica de sua cultura reflete as forças contraditórias que a alimentam, como o conflito entre o antigo e o moderno, ou entre o oriente e o ocidente.

Tatsuo Miyajima, nascido em Tóquio em 1957, espelha de maneira exemplar um certo aspecto destas questões. Concebidas na forma de esculturas, de objetos eletrônicos e de grandes instalações públicas, suas obras consistem em grande parte de contadores digitais que, através da contagem progressiva de 1 a 9 (ou regressiva, de 9 a 1), sugerem o fluxo ininterrupto do tempo. Por trás da aparência de alta tecnologia que reveste as peças,entretanto, Miyajima nos traz conceitos ancestrais da filosofia budista, que ele nos traduz em três sentenças: keep changing; connect with everything, e continue forever. Dentro deste aparentemente reduzido conjunto de materiais e proposições, suas obras se apresentam de maneira surpreendentemente rica e variada, constituindo uma meditação sobre temas como a nossa condição temporal, a nossa necessária conexão com a realidade à volta, e sobre o ciclo da vida e da morte – tudo com a aparência das mais novas tecnologias, mas enraizado em muito antigas formas do pensamento oriental.

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Fluxo de números digitais em constante mudança: metáfora da condição transitória de nossas vidas. Obra de Tatsuo Myajima.

O artista coreano Lee Bae explora a tradição do desenho em preto e branco feito à nanquim em pinturas que remontam aos grandes calígrafos do passado. O domínio sobre a linguagem concisa e imagética destes importantes personagens da cultura oriental reaparece em suas imagens simbólicas e enigmáticas, a meio caminho entre a imagem e a palavra, e se apresenta em todas as suas possibilidades contemporâneas nas enormes instalações feitas com esculturas de madeira carbonizada amarradas em grupos e dispostas pelo espaço, como enormes desenhos à carvão tornados reais.

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Obra do artista coreano Lee Bae: tradição oriental do preto e branco segundo interpretação contemporânea.
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Desenhos em preto e branco de Bae, feitos à nanquim em pinturas que remontam aos grandes calígrafos do passado.

O jovem artista chinês He Xiangyu toma a coca-cola como material, reprocessando-a de maneiras variadas para refletir sobre as grandes tensões entre a China e o ocidente no mundo contemporâneo, e o seu impacto na percepção que os orientais têm de sua própria identidade. Xiangyu dialoga com as coca-colas de Warhol, apresentando prateleiras de garrafas vazias do produto, em uma paródia do mestre pop. Também ferve o produto para reutilizar o repulsivo material resultante em esculturas e instalações que nos fazem pensar sobre o tipo de vida que levamos em nossas sociedades industriais. Mas talvez seja nos desenhos que faz à maneira da antiga tradição paisagística da China, apenas substituindo a venerável tinta nanquim por coca cola, que as contradições entre a identidade chinesa antiga e contemporânea se tornam mais evidentes.

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As coca-colas de He Xiangyu em diálogo com as coca-colas de Warhol
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Desenho feito com coca-cola, do artista chinês He Xiangyu: repensando a relação da China com o mundo.

Para encerrar este breve artigo, lembramos ainda do artista japonês Shinichi Maruyama: suas sedutoras esculturas líquidas reverberam mais uma vez a gestualidade dos notáveis calígrafos mencionados acima. Maruyama reinterpreta a tradição desta antiquíssima forma de arte à luz das sofisticadas tecnologias de fotografia e filmagem disponíveis em nossos dias, em performances que revelam a dramática plasticidade da água e demais líquidos: o zen-budismo na era da revolução digital.

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A gestualidade dos notáveis calígrafos em performances que revelam a dramática plasticidade da água. Mais uma obra de Obra de Shinichi Maruyama.

 

 

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