É um pássaro? É um tubarão? É um humano? Não, é uma obra de arte

O uso de corpos reais de animais na criação de obras de arte não é exatamente uma novidade – afinal, desde os anos sessenta estamos acostumados a conviver com águias, bodes e galinhas empalhadas nas obras de um artista do porte de Robert Rauschenberg, por exemplo; ou com o coiote vivo utilizado por Joseph Beuys, em sua famosa performance I Like America and America Likes Me, nos Estados Unidos, em 1974. Mas é interessante constatar o crescimento deste recurso nos últimos anos, por parte de vários artistas no mundo todo, e as diferentes questões que suscitam, em cada caso particular.

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MONOGRAMA 1955-59, obra de Robert Rauchenberg. Combinação de óleo, papel, tecido, reproduções impressas, metal, madeira e borracha sobre tela, com óleo e pneu de borracha na cabra Angora sobre plataforma de madeira montada sobre quatro rodízios.

O notório tubarão utilizado por Damien Hirst, ainda em 1991, constitui uma das mais conhecidas imagens da arte das últimas décadas, e é apenas um exemplo de uma prolixa série de trabalhos em que animais, fatiados ou não, constituem a substância mesma da obra. The Physical Impossibility Of Death In the Mind Of Someone Living, como é chamada a polêmica obra, é identificada com o aparecimento meteórico de Hirst na cena artística internacional, e considerada como o breakthrough que deslanchou sua carreira. O tubarão suspenso em um tanque de formaldeído foi o primeiro de um vasto conjunto de animais usados pelo artista britânico em sua trajetória, e introduziu as questões fundamentais que o acompanham até hoje – a inevitabilidade da morte, a partir de uma perspectiva materialista, antimetafísica, da existência. Vacas, carneiros, porcos, cavalos e zebras estão entre os animais que povoam a obra de Hirst, e que de maneira crua e violenta nos confrontam com o fato espantoso da morte, e de sua condição definitiva e incompreensível para nós, ainda viventes. Cercados de um humor para lá de negro, seus animais invadem a nossa consciência, e agridem a ilusão de que a vida é longa, e de que os anos passam lentamente; sua condição de corpos físicos reais, muitas vezes com as entranhas à mostra, nos confronta com a sua materialidade irredutível, abalando as confortadoras crenças de vida após a morte.

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The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living, obra de Damien Hirst de 1991.

A artista irlandesa Claire Morgan também explora os corpos de animais em seu trabalho como uma metáfora para a fragilidade da vida, e para a certeza da finitude. Embora a conhecida obra de Hirst constitua uma referência inevitável, suas esculturas e instalações oferecem uma abordagem muito mais delicada da questão: utilizando não apenas animais como pássaros, esquilos ou raposas, mas também sementes e flores, ela constrói cenas que sugerem a natureza dinâmica da realidade (através do rastro do voo de um pássaro), ou a inescapável finitude de tudo que é vivo. Assim, suas obras constituem meditações sobre a consciência da morte, através de um olhar por vezes cruel e sem concessões, mas dono de uma sofisticada leveza, algo feminino, e realizado com precisão matemática.

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Claire Morgan  explorando os corpos de animais, como uma metáfora para a fragilidade da vida.

O artista japonês Kohei Nawa, por sua vez, tem se distinguido na cena da arte nos últimos anos com obras em que animais variados como cervos, tigres ou coelhos empalhados são recobertos com esferas transparentes de vidro, de diversos tamanhos. O resultado é um efeito ótico que fragmenta a silhueta do animal em questão, multiplicando os pontos de vista através dos quais percebemos a sua forma, e distorcendo a maneira como vemos a imagem que se encontra por detrás das esferas de vidro. Ao fazê-lo, Nawa levanta questões ligadas ao modo como processamos a percepção visual das imagens que encontramos no mundo – mas também questões ligadas ao fato de que cada objeto do mundo pode ser percebido de maneira diferente, dependendo do ponto de vista pelo qual o observamos, e das lentes distorcidas que antepomos entre nós e tais objetos.

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A onça de Nawa e seu questionamento sobre a forma de como processamos a percepção visual das imagens que encontramos no mundo.

E, por último, não poderíamos deixar de comentar aqui a obra irreverente do belga Wyn Delvoye, que, entre outros temas, propõe o uso de animais, inclusive vivos, como obra de arte. Delvoye apresentou sucessivamente couros de porco, depois porcos empalhados, e finalmente porcos vivos mesmo, todos tatuados, como obras de arte. Delvoye cobre suas peles com motivos diversos, que vão do vocabulário usualmente utilizado nas lojas tradicionais de tattoo, aos motivos da cultura de massa (personagens Disney) e do mundo do consumo (padrões de bolsas Louis Vuitton). Ao apresentar animais vivos como objetos artísticos, sujeitos às leis do consumo e às estimativas comerciais, o artista levanta inegáveis questões éticas, ao submeter seres vivos à lógica humana de produzir e comercializar mercadorias, inclusive obras de arte.

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Os porcos tatuados do artista belga, Wyn Delvoye.

Entretanto, é com sua obra Tim que o artista leva estas questões para além dos limites imagináveis. Através de um inusitado contrato celebrado com um cidadão inglês (o Tim do título), Delvoye se apropria da pele de suas costas, onde realiza uma grande tatuagem. Pelo contrato, Tim deve se disponibilizar a ter suas costas exibidas de duas a quatro vezes ao ano, em diferentes partes do mundo; além disso, teve sua pele adquirida por um colecionador alemão – a pele será removida após sua morte, emoldurada e entregue ao então proprietário da obra. Perguntado se não se incomodava com estas condições, Tim garantiu que não – afinal, ele já é um doador de órgãos, além de ponderar que, ao morrer, já nem mesmo estaria mais ali. Mas o que você ganha com isto, insiste o entrevistador; e Tim responde: a possibilidade de conhecer vários lugares do mundo é um aspecto positivo; mas, principalmente, a chance única de participar de uma experiência inteiramente inovadora: a de se tornar ele mesmo, ou ao menos uma parte de si, uma obra de arte.

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Tim, 2006-208. Pele humana tatuada em tamanho real, na obra inquietante de Wyn Delvoye, questionando os limites da arte no século XXI.

Como vemos, se o uso de corpos de animais em obras de arte não é uma característica particular do século XXI, a maneira como isto tem se manifestado em obras como Tim, de Wyn Delvoye, nos mostram uma abordagem inteiramente inesperada da questão, revelando as novas fronteiras e problemas que começam a delinear as características que definirão este inquietante novo século, que mal começamos a adentrar.

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