Proibido ultrapassar a fronteira: a arte e a crise das migrações

Um dos grandes dramas de nosso tempo, o fluxo das grandes multidões humanas se deslocando de uma região para outra do globo, com suas drásticas consequências, tem assombrado e dividido o planeta. Fugindo da perseguição política ou religiosa, da fome ou da guerra, quase 70 milhões (!!!) de pessoas, segundo dados da ONU, abandonaram seus lares e partiram em busca de uma nova chance em um outro país – isto apenas no ano de 2017. Trágicos naufrágios dolorosamente frequentes no Mediterrâneo; caminhadas de milhares de pessoas através do continente europeu, que chegam a lembrar êxodos de proporções bíblicas; e o enfrentamento de políticas de imigração cada vez mais hostis constituem um dos maiores desafios morais da humanidade neste início de século XXI. Novos governos, eleitos a partir de plataformas xenófobas, tem se esmerado em patrocinar medidas cada vez mais duras, atravessando muitas vezes a fronteira dos mais básicos princípios de civilidade, e se aproximando das tenebrosas práticas que marcaram os mais odiosos regimes totalitários do século XX – afinal, de que outra maneira qualificar a separação de crianças de seus familiares, escândalo mais recente da política de imigração da inacreditável administração Trump?

A complexidade desta questão não nos permite imaginar soluções simples. Sociedades ditas desenvolvidas lutaram por muitas gerações para alcançar os padrões de bem-estar que exibem, atravessando guerras, fome, desordens econômicas e regimes totalitários ao longo de seus respectivos processos de industrialização – e a súbita chegada de grandes populações estrangeiras, com diferentes culturas e valores, ameaça esta ordem social e econômica duramente construída. Por outro lado, o drama humano vivido por milhões de famílias em várias partes do mundo, forçadas a abandonar sua terra natal devido às péssimas condições econômicas, à intolerância religiosa ou política, ou ainda por causa da violência da guerra pura e simples, em uma procura incerta, desesperada e imensamente perigosa, exige uma reposta à altura das sociedades ditas civilizadas. Como vamos lidar com este conflito?

A arte do século XXI observa esta questão muito de perto, e reprocessa em forma de obras de arte as imensas inquietações que o tema suscita. O enigmático artista britânico Banksy exibe sua inteligência e talento em uma arguta e pungente reflexão sobre o tema, em que os desesperados ocupantes da jangada de medusa aparecem acenando para um moderno iate de luxo. A célebre obra de Géricault é um símbolo do romantismo francês, e é corrosivamente trazida para a nossa contemporaneidade pela embarcação sofisticada que passa ao fundo, no horizonte do mar. Deslocada assim de seu contexto, a jangada subitamente é percebida como uma das inúmeras balsas que há anos vemos naufragar nos noticiários, semana após semana, vindas do norte da África; e a utilização de uma obra símbolo da cultura francesa, motivo de orgulho nacional, desmascara de maneira demolidora a política inamistosa com os imigrantes patrocinada pelo estado francês. Uma verdadeira obra prima de nossa contemporaneidade.

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Banksy e sua tradução contemporânea para a famosa obra romântica de Géricault

   

Quanto a Ai Weiwei, é muito conhecido o seu envolvimento com o tema, tratado pelo artista em inúmeros trabalhos nos últimos anos. Ele mesmo um ativista social perseguido pelo regime chinês, sofre na pele a condição de imigrante, apesar de sua condição privilegiada de artista internacionalmente reconhecido. Vivendo no exílio na Europa, Weiwei não deixou de produzir obras extremamente incômodas para seus anfitriãos, como as cinco colunas monumentais da ópera de Berlim recobertas com 14.000 coletes salva vidas, além de uma balsa com a inscrição Safe Passage – referências diretas às incontáveis vidas tragadas pelo mar nas perigosas travessias clandestinas, e às dificuldades impostas pelos governos dos países europeus para a entrada destes imigrantes em seu território.

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Ativismo social do artista chinês Ai Wei Wei

Já o artista sírio Mohamad Hafez assistiu de longe a desintegração de seu país e de sua família. Imigrante bem-sucedido, Hafez realizou sua formação como arquiteto em uma universidade americana, e reside no país desde o início dos anos 2000. Em 2011, acompanhou consternado o início da guerra civil em seu país de origem, e a subsequente crise humanitária que tem levado milhões de sírios a se deslocar forçadamente para outros territórios, deixando para trás, a contragosto, vidas estabelecidas, patrimônio constituído, famílias destroçadas e sonhos desfeitos. A dimensão da catástrofe em sua terra natal se torna ainda mais próxima quando seu cunhado, um renomado arquiteto em Beirute, abandona tudo que tem e coloca sua família (irmã e sobrinhos de Hafez) num bote para uma perigosíssima travessia noturna do mar Mediterrâneo em direção à Europa. Hafez reconstitui em suas meticulosas maquetes o horror da destruição nas milenares cidades Sírias, e no grupo de obras Baggage Series situa estas maquetes dentro de malas doadas por famílias de imigrantes – carregadas, portanto, de histórias, experiências e lembranças de desterros reais. Hafez reconstrói interiores de casas típicas de Damasco, exibindo as marcas deixadas pela violenta guerra civil, e não deixa dúvidas: suas maquetes revelam as entranhas da destruição das cidades, das casas, das famílias; enfim, as vísceras da sociedade síria como um todo.

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A desintegração da sociedade síria, na mala de um refugiado

Mona Hatoum, artista britânica nascida no Líbano de pais palestinos, reflete desde sempre em sua prestigiada obra esta ambígua condição. Sendo parte de um povo que perdeu a integridade de suas fronteiras, sua vida é marcada pela divisão dos espaços, pela separação de territórios, e pela condição de visitante indesejável que carrega a maioria dos imigrantes. Em Doormat, um inocente capacho de boas-vindas esconde a verdadeira intenção do mau anfitrião: feito de pregos, o capacho é antes um instrumento de agressão, de afastamento, e a mensagem real que veicula é bem outra, repelindo e afastando aqueles que chegam. Em Impenetrable, fios pendem do teto em uma releitura das elegantes e impessoais estratégias da arte minimalista, com um pequeno detalhe a mais: trata-se aqui de fios de arame farpado, material cortante e perigoso utilizado para levantar cercas, delimitar territórios e, no limite, fechar campos de concentração.

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Obras de Mona Hatoum enfatizam o desejo de afastamento em relação ao outro.

Encerramos este breve artigo com Yinka Shonibare, artista inglês de origem nigeriana: sua obra é caracterizada pelo uso de um tecido produzido em fábricas holandesas, originalmente para o mercado de países do sul da Ásia, como a Indonésia, mas que acabou fazendo sucesso em países africanos. Esta identidade imprecisa, fluida e multicultural do tecido aparece em obras como The British Library, em que Shonibare preenche estantes com cerca de 14.000 livros encapados com estes tecidos; na lombada de cada um vem impressos em letras douradas o nome de um imigrante que trouxe contribuições importantes para a cultura britânica – como T.S. Elliot, o poeta americano, ou Zara Hadid, a arquiteta iraquiana recentemente falecida. Assim, a grande beleza de The British Library é a lembrança da riqueza cultural trazida pela imigração; é a necessária recordação de que as trocas e intercâmbios entre povos e culturas é motivo de efervescência e fortalecimento de sociedades e culturas – uma bem-vinda manifestação a favor da integração entre povos de diferentes origens, e contra o erguimento de muros, arames farpados e fronteiras artificiais.2017_02_16_JamesCohan_009ppl-1024x683

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A biblioteca de Shonibare acolhe simbolicamente o saber de várias culturas
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